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Entrevistamos o Eduardo Philipps Empresário/Socio da GreenValley uma das principais casas noturnas de musica eletrônica no Brasil, 16 anos de Green Valley e 5 vezes eleita o melhor club do mundo, pela DJMAG.
1. O Greenvalley se tornou uma referência global na música eletrônica. Na sua visão, quais foram os principais fatores que levaram o clube a alcançar esse status internacional?
Acredito que foram três coisas que se encontraram no momento certo: localização, consistência e uma obsessão real por experiência. A localização é algo que nenhum outro clube no mundo consegue replicar. Estamos em Camboriú, cercados pela Mata Atlântica, a céu aberto. Isso cria uma atmosfera que não se fabrica, ela existe antes de o primeiro DJ tocar. Quando um artista internacional chega aqui e sente essa energia, ele entende imediatamente por que o Greenvalley é diferente. A consistência veio de não tratar nenhuma temporada como garantida. A gente constrói a cada ano como se fosse o primeiro. Line-up, produção, som, iluminação, atendimento… Tudo é repensado. Isso é o que manteve o Greenvalley no pódio do DJ Mag Top 100 Clubs por 16 anos consecutivos, com 5 títulos de Melhor Clube do Mundo. E a experiência é o que transforma o visitante em comunidade. A pessoa não vem ao Greenvalley para assistir a um show, ela vem para participar de algo. Essa diferença é sutil, mas é tudo.
2. Ao longo dos anos, o clube recebeu alguns dos maiores nomes da cena eletrônica mundial. Como vocês escolhem os artistas e constroem a curadoria musical de cada temporada?
A curadoria do Greenvalley nunca foi uma lista de nomes populares. É uma narrativa. Cada temporada tem uma identidade, e os artistas fazem parte dessa história. Começamos pelo que queremos que o público sinta, não pelo que está no topo dos charts. Claro, recebemos os maiores nomes do mundo: David Guetta, RÜFÜS DU SOL, Alok, Vintage Culture, Keinemusic, Boris Brejcha, entre muitos outros. Mas o critério nunca é só relevância, é conexão. O artista precisa fazer sentido com a energia do Greenvalley, com o momento da noite, com a jornada que estamos construindo naquela temporada. Também investimos em artistas que estão crescendo, que trazem algo novo. O Greenvalley sempre foi um espaço de descoberta, não só de confirmação. Muitos DJs que hoje lotam festivais pelo mundo passaram por aqui quando ainda estavam construindo seu nome.
3. A indústria do entretenimento mudou muito com o avanço da tecnologia e das redes sociais. Como essas transformações impactaram a gestão e a comunicação do Greenvalley com o público?
Mudou tudo e ao mesmo tempo não mudou o essencial. Para compreender o que mudou: hoje o público decide se vai a um evento nos primeiros três segundos de um vídeo. A comunicação precisa ser instantânea, visual e emocional. As redes sociais transformaram cada frequentador em um potencial criador de conteúdo, e isso é poderoso. Uma pessoa filmando um momento mágico na pista pode alcançar mais gente do que uma campanha que a gente possa fazer. Agora, o que não mudou: a tecnologia não substitui a experiência real. Nenhum story ou reel vai replicar o que é estar no Greenvalley com o som reverberando no corpo e a floresta ao redor. A tecnologia amplia o alcance, mas o que gera conexão de verdade continua sendo o que acontece presencialmente… Você precisa vivenciar um “Bom Dia, Greenvalley”! Na gestão, a tecnologia nos permitiu conhecer melhor o nosso público, personalizar a comunicação e otimizar operações.
4. Eventos de grande porte exigem uma logística complexa. Quais são os maiores desafios operacionais de administrar uma casa noturna do porte do Greenvalley?
O Greenvalley não é uma casa noturna convencional, é uma operação com escala de festival que acontece com regularidade. E isso exige um nível de logística que muita gente não imagina. Estamos em Camboriú, não em São Paulo ou em Ibiza. Trazer artistas internacionais para cá envolve voos, hospedagem, transfer, riders técnicos complexos. Cada detalhe precisa funcionar, porque o artista que toca no Greenvalley espera o mesmo padrão que encontra nos outros maiores palcos do mundo. Depois tem a operação no terreno: som, iluminação, cenografia, segurança, bares, equipe de atendimento. São centenas de pessoas envolvidas em cada evento. E tudo isso a céu aberto, sujeito a clima, em meio à natureza, o que adiciona uma camada extra de complexidade.
O maior desafio, porém, é manter o padrão noite após noite, temporada após temporada. Não podemos nos dar ao luxo de ter uma noite “mais ou menos”. Cada evento precisa entregar a experiência Greenvalley na íntegra. Mas preciso destacar meus diretores e colaboradores, eles são muito especiais, fazem suas tarefas com muita dedicação e amor ao Greenvalley…. acredito que isto seja uma grande diferença.
5. O Brasil tem uma das cenas eletrônicas mais fortes do mundo. Como você avalia a evolução do mercado brasileiro de música eletrônica nos últimos anos?
O Brasil saiu de um mercado onde a música eletrônica era vista com desconfiança para se tornar um dos países mais relevantes da cena global. Essa evolução é enorme e aconteceu em menos de duas décadas.
Quando inauguramos o Greenvalley, em novembro de 2007, o cenário era completamente diferente. Havia talento, havia público, mas faltava infraestrutura, faltava credibilidade internacional e faltava quem apostasse em fazer isso com seriedade a longo prazo. Hoje temos artistas brasileiros tocando nos maiores festivais do planeta, produtores reconhecidos lá fora, e um circuito de eventos que rivaliza com qualquer mercado europeu.
O que impulsionou isso foi uma combinação de fatores: a democratização do acesso à música via plataformas digitais, o surgimento de festivais e clubes com padrão internacional, como o Greenvalley, e a própria energia do público brasileiro, que é reconhecidamente um dos mais engajados do mundo. O desafio agora é sustentabilidade. Não basta crescer, é necessário amadurecer, e isso passa por profissionalização da gestão, respeito ao público e visão de longo prazo.

6. O público de música eletrônica também vem se transformando. Quais mudanças de comportamento você percebeu nos frequentadores do clube ao longo do tempo?
O público amadureceu junto com a cena. No início, a música eletrônica atraía principalmente quem buscava novidades, transgredir um pouco. Hoje o perfil é muito mais diverso. Tem gente de todas as idades, profissões e origens que vem pelo que a experiência representa, não só pela música em si. Uma mudança que eu noto com clareza é o nível de exigência. O público de hoje viaja, conhece clubes no mundo inteiro, compara. Ele sabe a diferença entre um som bem calibrado e um som médio. Ele percebe quando a curadoria foi feita com cuidado. Isso nos obriga a elevar o padrão continuamente e isso é bom. Outra coisa é a relação com a experiência. As pessoas não querem mais só ir a uma festa. Elas querem sentir algo, levar algo embora, criar uma memória. O Greenvalley sempre trabalhou com essa premissa, então nesse ponto a evolução do público veio ao nosso encontro.
7. O Greenvalley é conhecido pela experiência imersiva, com cenografia, iluminação e natureza ao redor. Qual é a importância da experiência sensorial completa para o sucesso de um evento?
É tudo. A música é o coração, mas a experiência sensorial é o corpo inteiro. Se você só entrega som, você está competindo com fones de ouvido. Agora, quando o som se combina com uma iluminação que acompanha cada batida, com uma cenografia que transporta, com o cheiro da mata ao redor, com a brisa noturna, aí você cria algo que não se reproduz em nenhuma tela. No Greenvalley, a natureza faz parte do projeto, não é decoração. A Mata Atlântica é nossa cenografia permanente. A gente trabalha com ela, não apesar dela. Isso é uma
vantagem competitiva enorme, porque nenhum arquiteto do mundo desenha melhor do que a natureza. Mas além do cenário, a imersão é construída nos detalhes menores: como o público é recebido na entrada, como o som varia de um ambiente para outro, como a luz conduz o olhar. Quando tudo isso conversa, o frequentador para de pensar e começa a sentir. E é esse o ponto.
8. Em um mercado cada vez mais competitivo, como o Greenvalley se mantém relevante e inovador dentro da cena global?
Mantém-se relevante quem nunca se acomoda. O maior risco de um clube que chegou ao topo é achar que já sabe a fórmula. A gente resiste a isso todos os dias. Inovação no Greenvalley não é só tecnologia, é mentalidade. É questionar cada temporada o que pode ser melhor. Às vezes isso significa trazer um formato de evento que nunca foi feito aqui. Às vezes significa repensar a experiência em áreas que o público nem percebe conscientemente, como fluxo de circulação, qualidade de som ou atendimento. E a relevância vem de estar conectado. Eu viajo muito, participo de feiras e fóruns internacionais, converso com gente do mercado no mundo inteiro. O Greenvalley não opera isolado, a gente está sempre olhando para fora para trazer o melhor para dentro. Mas no fundo, o que mantém a relevância é a conexão com o público. Se você ouve quem frequenta, respeita a inteligência das pessoas e entrega mais do que elas esperam, você se mantém. O dia que a gente parar de ouvir, a gente para de ser relevante.
9. Muitos jovens empreendedores sonham em trabalhar no mercado de entretenimento e eventos. Que conselhos você daria para quem deseja construir uma carreira nesse setor?
O primeiro conselho é: viva a noite antes de querer vender a noite. Entenda o que faz uma experiência funcionar. Vá a eventos, observe, sinta. O melhor empresário de entretenimento é aquele que entende profundamente o que o público sente, não só o que ele consome. Depois: não subestime a gestão. A noite é glamourosa de fora, mas por dentro é operação pura. Logística, financeiro, gente, licenciamento, negociação. Se você não gostar da parte que ninguém vê, não vai sobreviver. E tenha visão de longo prazo. O mercado de eventos está cheio de gente que quer o resultado rápido. Os projetos que sobrevivem são os que constroem com paciência, investem em qualidade e respeitam o público. O Greenvalley não se tornou o que é hoje em apenas um ano, já são quase duas décadas de trabalho diário, de errar, ajustar e seguir em frente.
10. O clube já passou por momentos desafiadores ao longo da sua história. Qual foi o maior aprendizado de gestão que você tirou dessas experiências?
O maior aprendizado veio do momento mais duro. Em junho de 2020, um ciclone-bomba destruiu toda a estrutura do Greenvalley. Tenda, pilares de aço, camarotes, equipamentos… foi tudo para o chão. O prejuízo foi de milhões. Naquele momento, a lição de gestão mais importante ficou clara: uma marca não é uma estrutura física. O Greenvalley continuou existindo mesmo sem paredes, porque o que construímos ao longo dos anos foi uma comunidade, não só um espaço. A reconstrução levou em torno de 17 meses e R$ 8 milhões de investimento.
Contratamos a 250K, a mesma empresa holandesa responsável pelo palco do Rock in Rio. Nossos diretores pegaram firme. Fizemos uma reunião de 13 horas seguidas sem ninguém sair da mesa para juntos tentar achar uma solução. Artistas do mundo inteiro, empresários, o público e a cidade de Camboriú se mobilizaram e apoiaram a reconstrução. Quando reabrimos com a festa “Together We Rise” com mais de 40 artistas no line-up, ficou provado que a conexão era real. O aprendizado é simples de dizer e difícil de praticar: invista nas pessoas, não só nas coisas. Quando a crise vem — e ela vem —, são as pessoas que reconstroem com você.
11. Como você enxerga o futuro dos grandes clubes e festivais de música eletrônica nos próximos anos?
O futuro pertence a quem entrega experiência, não só programação. O público está cada vez mais seletivo. Ele não vai sair de casa só por um “nome no flyer”, ele quer sentir algo que justifique a presença física. Vejo três tendências claras. A primeira é a integração entre música, arte e natureza, as pessoas estão buscando eventos que ofereçam mais do que som, que ofereçam um universo. Nisso, o Greenvalley já nasceu na frente.
A segunda é a profissionalização. O mercado vai ser cada vez mais exigente e ficará claro quem trabalha com seriedade e quem apenas improvisa. Logística, gestão financeira, experiência do cliente, responsabilidade social, tudo isso vai pesar. E a terceira é o papel dos clubes como plataformas culturais. Os grandes clubes do futuro não vão ser só casas de show, vão ser espaços de conexão, de comunidade, de transformação. É o que a gente já faz e pretende fazer cada vez mais.
12. Quais são os próximos projetos ou novidades que o público pode esperar do Greenvalley?
A gente nunca para. Cada temporada do Greenvalley é construída do zero, com uma identidade própria e a próxima não vai ser diferente… Em paralelo a estas entregas especiais dos eventos, estamos implantando ESG no
clube. Na parte social criamos o ingresso social, copo solidário e a cortesia solidária. Hoje já estamos ajudando diversas instituições em toda a região. Até o último evento realizado antes dessa entrevista (Boris Brejcha, no dia 06 de Junho de 2026), foram 3 edições realizadas, mais de 16 instituições beneficiadas, que acolhem mais de 700 pessoas, cerca de 15 toneladas de alimentos, 55 litros de óleo e mais de R$ 10 mil arrecadados. Também voltamos com a GV Life, onde o bem-estar e wellness são nossa dedicação e estilo de vida no Complexo Greenvalley. A ideia é se conectar com esporte, natureza, música e comunidade. Já realizamos corridas (GV Life Run), Yoga (GV Life Yoga), entre outros. Neste momento, estamos trabalhando em um projeto muito grande e especial para 2028, em breve vocês saberão o que é… O que posso dizer é que quem conhece o Greenvalley sabe: a gente nunca entrega o mesmo duas vezes. E quem ainda não conhece vai ter bons motivos para vir.
Entrevista por Sérgio Lima Junior



